Apenas DJANIRA

Apenas DJANIRA é o título desta matéria que o avareense Jesiel Júnior, jornalista, escritor e pesquiisador encontrou para narrar, resumidamente, a vida de sua conterrânea, a artista plástica Djanira (1914-1979), que conseguiu deixar marca irremovível na arte brasileira do século XX. De acordo com o autor, a história de Djanira começa praticamente num leito de morte. Numa época em que poucos sobreviviam às doenças infecciosas, a então

 jovem, contraiu tuberculose. "Tuberculosa aos 23 anos, salvou-se através do seu primeiro desenho – um Cristo no calvário – feito no sanatório. Isso a inspirou e ela conservou-o como um dos seus bens mais preciosos", escreve ele sobre a artista que conciliava disciplina com poesia. "Para ela, o desenho significava a disciplina e a cor, a poesia. Ela nada pintava sem antes desenhar", explica ele sobre o método usado pela artista, , cujas as principais obras são:

Painel de Santa Bárbara, 1958 (acervo do Museu Nacional de Belas Artes MNBA – RJ)
Festa do Divino em Parati, 1962 (acervo do Palácio dos Bandeirantes)
O circo, 1944 (acervo da FUNARTE)
Senhora Sant’Ana de Pé (acervo do Museu de Arte Moderna do Vaticano)
Inconfidência, 1975 (acervo do Governo do Estado de Minas Gerais)
Serradores, 1959 (coleção Roberto Marinho)
Anjo com Acordeão, 1962 (Coleção Gilberto Chateaubriand – Museu Arte Moderna RJ).
Pescadores, 1956 (Coleção Embaixador Taylor)  
 
Por Gesiel Júnior 

Pintora mudou duas vezes o sobrenome, mas em suas telas só assinava o famoso prenome – Paulatinamente, nos últimos dez anos, Avaré redescobriu os traços e as cores da artista mais importante de sua história. As telas e desenhos de Djanira (1914-1979) marcaram essencialmente a arte brasileira no século vinte. Além das biografias publicadas nesse período, o nome da pintora passou a ocupar espaço merecido em salas de aula da sua cidade natal. 
 

A instalação do Centro Cultural que mantém pertences da artista e a realização freqüente de eventos sobre o tema concorrem também para que o público avareense conheça mais sobre a notável conterrânea antes esquecida.

A propósito, o Memorial Djanira preserva documentos da artista que trazem curiosidades de sua trajetória. No registro civil ela teve o nome grafado como Dijanira Job Paiva. Serviu de testemunha do ato o sírio Mahmud Sacre. Só mais tarde, em 1962, seu prenome foi judicialmente retificado na certidão de nascimento. 

Em vida, como veremos a seguir, a pintora teve três sobrenomes distintos por conta de dois casamentos. Entretanto, como se vê em todas as suas obras artísticas, ela preferiu assinar apenas Djanira. 

Avós da pintora eram professores – Os pais da pintora – Pia Job e Oscar Paiva – se casaram em 20 de setembro de 1913. Ele, artista carioca de 29 anos, era descendente de índios guaranis do Sul. Ela, adolescente mineira de 17 anos, era filha de pais tiroleses. Quem oficiou a cerimônia civil foi o juiz de paz João Dionísio Franco do Prado, irmão de Maneco Dionísio.

Exatamente nove meses depois Djanira nasceu no pitoresco sobrado da Rua Piauí, que ficava perto do 1º Grupo Escolar, na fria manhã de 20 de junho de 1914, fim de outono, na residência de seus avós maternos, ambos professores.

Aliás, naquela casa funcionava uma escola particular mista. O avô, Luiz de Job, lecionava matemática e era agente consular da Áustria. Maria Elisabeth Pliger Job, a avó, formada pelo Instituto Magistral Feminino de Trento, dava aulas de alemão, francês e italiano. 

De Avaré para o mundo – Bem pouco tempo Djanira viveu em Avaré. Pequenina, mudou-se para Porto União (SC). Seus pais se separaram e ela foi adotada por uma família amiga. Em 1928, a avó Elisabeth a trouxe de volta para sua terra e ela morou na Fazenda São José do Letreiro, onde aprendeu a plantar e a colher café. 

Em 1931, partiu para São Paulo e lá trabalhou como vendedora ambulante. Em Santos, conheceu o marinheiro Bartholomeu Gomes Pereira com quem se casou e então passou a assinar Djanira Gomes Pereira.

Tuberculosa aos 23 anos, salvou-se através do seu primeiro desenho – um Cristo no calvário – feito no sanatório. Isso a inspirou e ela conservou-o como um dos seus bens mais preciosos. Curada, mudou-se para o Rio de Janeiro e lá foi costureira, cozinheira e dona de pensão no bairro de Santa Teresa, onde conheceu o mundo das artes plásticas.

Com o jovem pintor romeno Emeric Marcier (1916-1990), ela aprendeu “a cozinha da arte”, ou seja, o segredo das tintas, das telas e das têmperas.

Viúva em 1942, Djanira surgiu no meio artístico e motivada pelos pintores Lasar Segall, Cândido Portinari e Milton Dacosta, viajou aos Estados Unidos, de onde voltou consagrada internacionalmente após um período de dificuldades e privações. 

Passou a fazer viagens pelo país e, em Salvador, convidada, decorou a casa do escritor Jorge Amado. Lá conheceu seu segundo marido, José Shaw da Motta e Silva, com quem se casou em 1952 quando passou a assinar Djanira da Motta e Silva.

Autodidata e intuitiva, ela venceu a doença, a pobreza e as dificuldades técnicas da expressão artística. Tudo porque, em suas telas, soube contornar os traços e as cores da cultura autenticamente nacional.

No desenho, a personalidade da artista – Loris Graldi Rampazzo, doutora em Artes Plásticas, é a maior especialista na obra djaniriana. Ela destaca ser o desenho a marca da personalidade da pintora avareense. “Talvez o autodidatismo tenha contribuído para essa marca, profunda desde o início da carreira”, observou.

 O desenho, para Djanira, era um dos elementos mais importantes porque ela estruturava seus quadros primeiro pela linha antes de colori-los.

“Só depois de muito pensar e fazer o desenho esperado é que vou jogá-lo na tela”, explicava a pintora, cujo método era nada pintar sem partir do desenho, pois para ela o desenhar era a disciplina e a cor, poesia. 


“Quero abrir caminho aos pintores do porvir. Quero tornar a pintura brasileira universalmente conhecida”, Djanira
 
Obra – Serradores (1959) coleção de Roberto Marinho
 
DJANIRA – Aquarelado



* Texto publicado no Semanário Oficial da Estância Turística de Avaré, edição de 18 de junho de 2011
 
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