Artigo Sem Assunto

Pedro Israel Novaes de Almeida*Por Pedro Israel Novaes de Almeida – Mais uma vez, premidos pelo tempo, tentamos dedilhar um artigo. A escolha do tema é um tormento semanal, e a preocupação maior é não enveredarmos por temas específicos, capazes de revelar nossa ignorância nas artes, literatura, economia e tudo o que fuja de nossa formação genérica, pequenas constatações que acumulamos ao longo da vida.

O conservadorismo, característica atribuida, pejorativamente, aos que afirmam valores e ousam dissentir de modismos de opinião, deve ser assumido por inteiro, fugindo à bestialidade do politicamente correto, que carcome célebros e massifica procedimentos.

Escritos amadores não concorrem a pódios de aprovação popular, nem são planfetos buscando celebrizar autores. São meros depoimentos que visam manter exercitados os neurônios, bradar convencimentos próprios e contribuir, um pouco, para a diversidade de opinião.

Escrever é inscrever-se, como réu, em foro alheio. É submeter-se a ser tido como roto, pelo esfarrapado, mas é também, e sobretudo, alistar-se no rol dos libertados.

As manchetes da época são convidativas, mas não devem pautar artigos de opinião, que acabam descartados, como conteúdos de ocasião, aproveitadores da comoção ou euforia geral. Podem, no máximo, ensejar a argumentação de temas quase permanentes.

A limitação, verdadeira auto-censura, conduz os artigos à impessoalidade, evitando imputações e criminalizações pessoais. Por outro lado, censura ou glorifica ações grupais ou partidárias.

Temas que integram o cotidiano, como cotas racistas, indigenismo atávico e irreal, corrupção, movimentos classistas em busca de favores e cartórios, injustiças e deficiências sociais, animam e instruem artigos, simplificados pela argumentação surgida da indignação pessoal.

Devemos confessar cacoetes que acabam por frequentar os artigos, como a afronta aos que, ungidos pelo voto, atuam como se dirigissem impérios insondáveis. Confundem mandatos com reinados.

Artigos amadores são manifestações pessoais, que, somados aos milhares que circulam diariamente, demonstram que ainda não somos um batalhão de concordes e que a sociedade segue viva, alheia aos esforços dos que, por conveniência de poder, tentam transformá-la em clone.

Artigos amadores são conversas com amigos, impossíveis pelos botecos que não frequentamos e pelos eventos sociais que evitamos. São interações sociais, verdadeiras convivências, permitidas pela condição de eremitas solitários, a que rumamos.

Mais uma vez, tardou a descoberta do tema da semana, e finalizamos o artigo, sem um assunto que o norteie. Esperam-nos, lá fora, cães e plantas, e o entregador acaba de trazer as rotineiras manchetes da desventura humana.

E assim segue a vida, e assim são firmados os artigos.

[email protected]

O autor é engenheiro agrônomo e advogado, aposentado.

Compartilhar

Notícias relacionadas