As consequências da Pandemia da Covid-19 sobre o bem estar e a saúde mental

Drª Elenice Bertanha Consonni, psicóloga e docente da FMB, e Drª Joyce dos Santos Neves, médica psiquiatra da FMB, falam sobre diferentes sintomas ocasionados pela quarentena e dão dicas para minimizar os efeitos do período de isolamento social.

A pandemia da Covid-19 revelou-se um potente fator de estresse para a população de diversos países, não somente pelo risco de contaminação, mas também por trazer consigo o distanciamento social, dificuldades econômicas, incertezas, entre outras consequências.

É a primeira vez na história recente que vivenciamos um fenômeno dessa magnitude, em que indivíduos, famílias e comunidades inteiras estão ou serão afetadas em todo o mundo. A Organização Mundial de Saúde reconheceu que a pandemia terá importantes consequências no bem-estar psicológico das pessoas, podendo agravar ou até mesmo gerar problemas mentais, propiciando o aumento da preocupação com os impactos para a saúde mental, no curto e longo prazo.

Dado seu caráter inédito, ainda não é possível conhecer todos os efeitos da pandemia sobre a saúde mental da população. Apesar disso, podemos nos guiar por situações de quarentenas passadas, assim como nas recentes pesquisas publicadas, baseadas nas experiências dos primeiros países afetados pela Covid-19, como a China e a Coréia do Sul, que apresentam dados sobre as consequências da primeira fase de quarentena na saúde mental das pessoas.

Sabemos que, frente a situações de grave crise como a que estamos vivendo, cada indivíduo é afetado de diferentes maneiras, existindo uma grande possibilidade de reações e sentimentos que podem surgir ao longo da crise e até mesmo após seu término. Uma das grandes angústias advindas com as circunstâncias desta pandemia é a dúvida que paira sobre o futuro, em todos os aspectos.

O ser humano tem muita dificuldade em lidar com o não-saber, relacionando o terror da dúvida com a perda do controle sobre a própria vida, o que pode levar muitas pessoas a se sentirem confusas, amedrontadas e apresentarem sintomas de ansiedade. A maioria de nós, quando submetidos ao distanciamento social e consequente mudança de rotina, pode experimentar uma desagradável percepção de que os planos para o futuro imediato mudaram de forma repentina e dramática, o que pode ser desorganizador. Além disso, não podemos esquecer que viver uma pandemia vai contra a concepção aceita por alguns de que o mundo é justo e governado por um poder superior benevolente, o que pode ser fator estressor adicional, principalmente para quem mantém alguma crença religiosa.

Em revisão publicada em março deste ano na revista Lancet, os autores afirmam que a quarentena está frequentemente associada a um efeito psicológico potencialmente negativo. Dentre as principais alterações que podem ser observadas, pode-se destacar sintomas de estresse pós-traumático, reações de luto, sintomas depressivos e ansiosos (incluindo crises de pânico), ideação suicida, comportamentos violentos, e abuso de substâncias psicoativas. Os profissionais que trabalham em hospitais são mais suscetíveis a exaustão, ansiedade, irritabilidade, insônia, redução da empatia, além de queda do desempenho e das funções cognitivas. A intensidade das reações depende de diversos fatores, como: idade, saúde física, apoio social, histórico pessoal e familiar de problemas de saúde mental, entre outros.

Como seres racionais que somos, é natural que, a princípio, fiquemos bastante desconfortáveis com as reações inconscientes e primitivas desencadeadas pela vivência da pandemia, o que pode, inclusive, nos levar a deliberadamente negá-las em nosso pensamento consciente, como se não existissem. É importante compreendermos que estamos diante de um cenário extremamente estressante e, portanto, reconhecer que sentimentos de tristeza, ansiedade, medo e mesmo sintomas depressivos são reações esperadas frente a tamanho desafio.

As sugestões seguintes podem ser úteis no gerenciamento do estresse: pense no que o ajudou a lidar com os seus problemas no passado e o que você pode fazer de semelhante agora para se fortalecer; caso esteja realizando home office, tente manter certa rotina, incluindo carga horária de trabalho fixa, alternando com períodos adequados de descanso, para não ficar muito esgotado; caso esteja sem nenhuma atividade regular, tente não se cobrar tanto por produtividade – tudo bem estar mais improdutivo em um momento como esse; reduza o consumo de álcool, cafeína e nicotina e evite utilizar medicamentos sem prescrição médica; procure dormir e se alimentar bem; utilize a internet para manter contato com amigos, entes queridos ou outras pessoas em quem você confie para apoiá-lo; tente adaptar o ambiente doméstico de forma que consiga realizar alguma atividade física e, por fim, limite a sua exposição à mídia (TV, jornais, internet) e, quando o fizer, procure sempre referências de confiança.

Para o caso de essas medidas não serem suficientes, é importante estar atento para reações e sintomas que exigem atendimento e cuidados de profissionais da saúde mental. Para identificá-las, atente-se a situações em que a pessoa apresenta comportamentos de risco para si mesma e/ou outras pessoas, ou cujos sintomas a impedem de cuidar de si ou dos próprios filhos e demais dependentes. Preocupações excessivas e paralisantes, perda do prazer e interesse em atividades prazerosas e pensamentos suicidas são alguns dos sinais de alarme para procura por ajuda. Nesse caso, recorra inicialmente à Unidade Básica de Saúde mais próxima de sua residência para acolhimento. Caso seja funcionário do complexo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Botucatu (HCFMB), há ainda a opção de que o acolhimento psicológico inicial seja feito por via telefônica pelos números: (14) 99639-0693 ou 99893-9607. (Vinicius Dallaqua dos Santos
Assessoria de Comunicação e Imprensa da FMB|Unesp)

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