Djanira e seus ilustríssimos fãs

memoria vivaPor Gesiel Jr – Artista plástica de origem popular, a avareense Djanira da Motta e Silva (1914-1979) manteve, em seu tempo, relacionamento com personalidades expressivas da intelectualidade e da política, muitas delas admiradoras do seu estilo genuinamente nacionalista. Pintora autodidata e de espírito libertário, ela testemunhou episódios marcantes do século vinte, o que a fez declarar-se

“rigorosamente democrata, antiimperialista e contra o dirigismo da cultura”.
   
Scaneado por:No Rio de Janeiro, ao expor pela primeira vez, Djanira logo ganhou o apoio do pintor Lasar Segall, que nela anteviu uma verdadeira artista. Generosa, ela cedeu obras em benefício da Real Força Aérea Britânica (RAF) para ajudar a campanha dos aliados na 2ª Guerra Mundial. Teve um dos seus quadros adquirido pela duquesa de Kent.
   
Ambiciosa por reproduzir a brasilidade em suas telas, em 1943, expôs em Belo Horizonte (MG). Lá recebeu elogios do então prefeito Juscelino Kubistschek. Na mesma ocasião conheceu de perto o pintor Cândido Portinari, outro a se impressionar com seus traços e cores e a adquirir suas telas.
   
memoria vivaMATURAÇÃO – Viveu por dois anos nos Estados Unidos, onde conheceu os pintores Marc Chagall, Joan Miró e Jules Léger. Nessa fase enfrentou dissabores até obter a chance de ter uma mostra sua em Washington. Visitada pela ex-primeira dama Eleanor Roosevelt, esta assinou na imprensa uma crítica favorável à brasileira de Avaré. Foi o bastante para que a obra djaniriana alcançasse projeção internacional.
   
Voltou à sua terra com o estilo mudado, cheio de espaços de cor e com uma meta: fazer uma pintura geral do Brasil.
   
Para tanto a artista resolveu viajar pelo país. Em Salvador (BA), convidada, decorou a casa do escritor Jorge Amado, seu fã, para quem “no dia que se escrever a história da arte brasileira, vai-se dizer de Djanira que sua pintura nasceu do povo, cresceu com ele, com ele se tornou poderosa e densa de drama e de pura alegria”.    
   
Viajou, em 1953, por Minas e Goiás, depois foi ao Chile onde travou amizade com os poetas Pablo Neruda e Gabriela Mistral. Nos anos seguintes esteve na Áustria, Polônia, Rússia, Romênia, Hungria, Tchecoslováquia e Holanda.
   
Passou temporadas no interior de Santa Catarina e por seis meses conviveu com os índios Canela, no Maranhão. Tudo para poder pintar as suas raízes e os costumes da cultura brasileira.
   
O poeta Manuel Bandeira, seu amigo, prestigiou uma mostra retrospectiva que ela organizou no Rio, em 1958, tempo em o nome de Djanira foi incluído na “Current Biography, Who’s News and Why”, conceituada publicação nova-iorquina sobre os expoentes das artes plásticas em todo o planeta.
       
Em 1963, o jornalista Carlos Lacerda, governador da Guanabara, pediu à artista para executar um painel decorativo na capela do Túnel Santa Bárbara, no Rio. Como o local era uma caverna, Djanira ali criou um dos pontos altos da pintura cerâmica no Brasil.
          
Esse painel de azulejaria, em azul e branco, intitulado “Santa Bárbara e as Operárias” ficou no local até 1985. Retirada para restauração, a gigantesca obra de 160 metros quadrados foi reimplantada, em 1996, pela Fundação Roberto Marinho no pátio interno do Museu Nacional de Belas Artes.
            
PERSEGUIÇÃO – Em maio de 1964, semanas após o golpe militar, Djanira ficou presa por algumas horas. Policiais portando metralhadoras a interrogaram como suspeita de atividades subversivas.
“Quando perguntada qual a minha ideia política, respondia com convicção que era somente o meu trabalho de pintora. A produção de um trabalho – enfatizou – seja qual for, é uma ação política por si só. Política do engrandecimento pátrio”.
   
Aos 50 anos, indignada, apelou: “Rogo ao presidente Castelo Branco que nos conceda a liberdade, paz de espírito para um trabalho produtivo na direção intelectual da Pátria comum”.
   
Não se sabe se o marechal tomou conhecimento do pedido da pintora. Entretanto, no ano seguinte, durante visita ao país, o Xá Reza Pahlevi, então soberano do Irã, foi presenteado por Castelo Branco – que ironia! – com uma tela da artista retratando uma cena nordestina.
   
Em 1968, Djanira participou da Passeata dos 100 mil, no Rio. Contrária às arbitrariedades da ditadura, ela considerava a liberdade como o orgulho da vida brasileira.
   
Apesar de sua saúde frágil, continuava viajando pelo país. Em 1970, a convite do governador do Maranhão, José Sarney, ela pintou cenários de São Luís e o Palácio dos Leões. “Tenho raízes plantadas na terra, não traio minhas origens, nem me envergonho de ser uma nativa”, dizia.
   
CONSAGRAÇÃO – Católica e carmelita professa, Djanira apreciava retratar anjos e santos em seus quadros. Para surpresa sua, em 1972 o papa Paulo VI a condecorou com a comenda “Pro Ecclesia et Pontifice”. E mais: o óleo sobre tela “Sant’Ana de pé” tornou-se a primeira obra de uma artista latino-americana a fazer parte da coleção da Pinacoteca do Vaticano.
   
Promoveu, em 1976, a sua última mostra retrospectiva. Já era uma artista respeitada e consagrada. Defensora da liberdade de expressão, ela apoiou o movimento da Anistia.
“Se não possuo nenhuma vocação para as contradições políticas que dividem a humanidade, também não silencio – frisou – minha afirmação decidida contra as causas da pobreza que humilha, contra a animalidade dos racismos e das guerras”.
   
Louvada pela poesia dos amigos, dentre eles Paulo Mendes Campos, Clarice Lispector, Ferreira Gullar, Otto Lara Resende e dom Marcos Barbosa, a pintora desapareceu, em 1979, mas suas cores permanecem muito vivas.
   
Prova é que, recentemente, em agosto de 2011, a TV exibiu no Palácio do Planalto duas obras significativas da pintora avareense afixadas nas paredes da sala de despachos da Presidência da República: “Praia do Nordeste” e “Bananal”.
   
“Quis manter essas telas de Djanira em meu gabinete porque a vejo como uma das pintoras mais importantes da nossa história”, afirmou a presidente Dilma Rousseff, que nesse lugar recebe chefes de Estado e lideranças internacionais.
   
Criadora de um conjunto de obras inteiramente nacionalista, a artista, numa simples frase, assim se auto-definiu: “Sou formalista, sou Brasil, sou Djanira”.

Crônica publicada no Semanário Oficial da Estância Turística de Avaré, edição de sábado, 17 de março de 2012

* O cronista é autor dos livros "História de Djanira, brasileira de Avaré (Editora Arcádia, 2000) e "Contando a Arte de Djanira" (Editora Noovha América, 2004)

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