Há 80 anos: Avaré sob a Batuta de Villa-Lobos

Apresentação de Heitor Villa-Lobos em 30 de agosto de 1931Por Gesiel Júnior – Domingo, 30 de agosto de 1931. A penúltima noite deste mês foi de gala para a cultura avareense. O antigo Cine-Theatro Santa Cruz tornou-se palco de um espetáculo memorável: o concerto regido por Heitor Villa-Lobos (1887-1959). Célebre por deixar sua marca na música clássica do século XX ao misturar as raízes portuguesas e indígenas, o maestro esteve em Avaré

acompanhado de Lucília, sua primeira esposa, da cantora Nair Duarte Nunes e do admirado pianista João de Souza Lima (1898-1982). Eles integravam a “Caravana da Arte Brasileira” e percorreram 54 cidades paulistas servidas pela Estrada de Ferro Sorocabana.

Dessa excursão, aliás, nasceu a ideia de Villa-Lobos de compor o Trenzinho do Caipira, composição integrante das Bachianas Brasileiras nº 2, peça caracterizada por imitar o movimento de uma locomotiva com os instrumentos da orquestra.

Atendendo a uma recomendação do prefeito Félix Fagundes as professoras Esther Pires Novaes, Nilda Autran Bastos Cruz e Hilda Rodrigues Miller encarregaram-se de acolher e hospedar os ilustres músicos.

Aplaudidíssimo, o concerto, em clima de nacionalismo, começou pontualmente às 20h30. No vigor de seus 44 anos, Villa-Lobos apresentou “Momoprecoce”, fantasia para piano e orquestra baseada em sua série para piano solo “Carnaval das Crianças”. O repertório incluiu ainda alguns Choros e o poema sinfônico “Amazonas”.

Nesse período, de volta da França, o maestro, então apoiado pelo governo revolucionário de Getúlio Vargas, viajava pelo interior do país pesquisando seu folclore e entrando em contato com uma música diferente da que estava acostumado a ouvir: modas caipiras, tocadores de viola e outros tipos que mais tarde viriam a universalizar-se através de suas obras.

Influenciado pelo compositor, Vargas institui, em 1932, o ensino obrigatório de música e canto orfeônico nas escolas. E cria o Curso de Pedagogia de Música e Canto Orfeônico, ministrado por Villa-Lobos, que havia assumido a direção da Superintendência de Educação Musical e Artística (SEMA).

Banda homenageou músicos no Largo São João

Ainda na tarde de domingo, Villa-Lobos e Souza Lima, convidados, compareceram ao Largo São João, onde a Banda Municipal, sob a regência de Sebastião Souza Coelho, interpretou números populares.

O maestro, comovido, agradeceu as manifestações e lembrou que, ainda menino, motivado pelo próprio pai, fez seus primeiros estudos de solfejo e teoria musical e na prática do clarinete e do violoncelo.
Desde então, Villa-Lobos observava o descaso com que a música era tratada nas escolas brasileiras. Por essa razão quis visitar o 1º Grupo Escolar de Avaré (atual Escola Matilde Vieira) para falar aos alunos sobre a importância do aprendizado musical.

Dono de uma grande produção artística, o maestro criou 1.500 obras no espírito nacionalista que dominou sua época. Compôs 12 sinfonias, sendo a mais importante a Nº 10, Sumé Pater Patrium, uma obra-prima. Em sua obra prolífera, Villa-Lobos soube combinar genialmente diferentes estilos e gêneros, introduzindo sem hesitação materiais musicais tipicamente brasileiros em formas tomadas de empréstimo à música erudita ocidental.

* Gesiel Júnior, 47, cronista e pesquisador, é autor de 23 livros sobre a história de Avaré e região.

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