O BC aumentou da taxa de juros para combater a inflação. O tiro pode sair pela culatra…

Caro leitor, vamos dar uma pausa em nossas análises sobre os efeitos do Covid-19 na economia e voltarmos a falar sobre a taxa de juros e suas relações com a economia.

Conforme previsto em nosso primeiro artigo, na reunião do COPOM do ultimo dia 03 de julho foi aprovado um novo aumento da taxa de juros. O que nos faz tratar deste tema é que este aumento tem relação direta com os dois artigos que já publicamos aqui sobre taxa de juros, bem como analisar o quanto aumentou (de 4,25% para 5,25%) além de vermos se a justificativa de que o aumento é para conter a inflação faz sentido.

Nas ultimas reuniões o Banco Central vinha aumentando a taxa de juros entre 0,5% e 0,75%, mas agora aumentou em 1%. A causa desta aceleração do aumento é a forte pressão política sobre dados gerais da economia brasileira e alta da inflação notada nos últimos meses.

Não há muito a analisar sobre a pressão política, mas acredito ser importante analisarmos a controversa relação com o aumento da inflação, já que em um dos artigos mencionamos que a alta dos juros tende a gerar preços mais altos e conseqüente inflação.

Porém precisamos entender que os preços que neste momento geram pressão sobre a inflação são de commodities, como petróleo, milho, soja, carne e arroz, que são determinados em dólar. Como sabemos todos estes preços subiram a nível internacional, o que já seria suficiente para pressionar a inflação no Brasil, e para pressionar ainda mais o dólar também subiu. Somando o efeito destas duas altas temos o aumento da inflação em reais.

Como as commodities e o dólar subiram pela incerteza do mercado provocado pelo Covid-19, não há muito que fazer, mas a análise do COPOM é que com o aumento da taxa de juros o Brasil vai atrair mais investimento estrangeiro, aumentando a entrada de dólares no Brasil, o que conseqüentemente reduz a taxa de câmbio e diminui a pressão pela inflação. Por outro lado os últimos dados da economia americana são positivos, o que gera mais interesse por dólares podendo anular o efeito esperado sobre as commodities com a alta dos juros.

Se tivermos anulação do efeito sobre as commodities, mas tivermos o efeito negativo do aumento do custo de crédito, podemos ter uma pressão ainda maior sobre a inflação, mas não é o que o COPOM espera, pois a decisão tomada foi isolando efeitos externos sobre a taxa de câmbio e commodities. Podemos dizer que todas ou quase todas as decisões econômicas são tomadas isolando alguns fatores, pois não é possível prever a “psicologia de massa” e efeitos inesperados.

Portanto, e infelizmente, não acredito que este aumento seja suficiente para conter a inflação como esperado, mas felizmente não devemos ter inflação alta. O tiro pode sair pela culatra, pois, ainda que justificável, o aumento deveria vir acompanhado de outras ações mais estruturais que monetárias (falaremos sobre isso em futuros artigos).

Envie sugestões de temas, dúvidas, críticas através do e-mail [email protected] ou através do Messenger do autor (Sidnei Almeida).

Sidnei Almeida, natural de Itaporanga, formado em Ciências Econômicas pela Universidade Federal do Paraná com extensão em Gestão Econômica Financeira pela Fundação Dom Cabral, além de vasta experiência em grandes empresas na área de financeira e crédito e bancos como Banco do Brasil, HSBC, Banco Renault/Santander e atualmente BNP Paribas, líder europeu.

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1 Comentário
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João Ribeiro
João Ribeiro
10 de agosto de 2021 13:16

-Boa tarde.
Parabéns Sidnei e Itaponews pela informação didática e esclarecedora.