Sidnei Almeida: Apagão de Novo – O custo vai além de nossa conta mensal de energia

Muitos certamente se recordam do apagão de 2001, cujas causas são muito semelhantes ao de 2021, porém os efeitos podem ser ainda maiores. Alguns analistas dizem que o apagão de 2001 custou a eleição de José Serra para presidente em 2002, uma vez que ocorreu durante o governo Fernando Henrique do mesmo partido.

Poderíamos ter aprendido a lição e não passarmos pelo mesmo problema novamente. Se analisarmos as usinas hidrelétricas em atividade, podemos ver que de 2009 a 2019 aproximadamente 60 usinas hidrelétricas entraram em operação no Brasil, representando uma expansão de aproximadamente 27.000 MW. A verdade é que esta expansão, além de não ser suficiente para a demanda crescente, também não “ataca” o problema raiz da produção de energia no Brasil, que é a crise hídrica, ou seja, falta de água para produção de energia.

Assim como em 2001, o apagão de agora, além do aumento do consumo, é causado pela falta de água e não tivemos desde 2001 um investimento para a instalação de novas alternativas de geração de energia elétrica, além de falhas no sistema de distribuição, ou seja, mesmo que tenhamos produção suficiente não conseguimos fazer com que a mesma chegue ao consumidor que precisa. Alguns fatores podem justificar esta falta de investimento: primeiro é que são investimentos de valores altos, os quais se não forem utilizados em sua totalidade gerariam aumento da conta para manutenção de um estoque de capacidade de produção; outro fator é que a energia de fonte hidroelétrica é considerada a energia mais limpa, ou seja, os impactos ambientais são menores; por último temos a regulamentação do setor elétrico que dificulta investimentos no setor elétrico em geral.

Em 2001 o Brasil produzia 328.551 GWh que somados a uma importação de 37.854 GWh seriam suficiente para atender o consumo de 309.729 GWh, assim como agora, pois em 2020 produzimos 621.251 GWh além de importar 25.113 GWh para um consumo de 540.189 GWh, ou seja temos produção suficiente, mas um problema de distribuição não corrigido desde 2001.

Se analisarmos do ponto de vista percentual tivemos em 2020 uma sobra de produção de aproximadamente 20%, sendo que em 2001 a sobra era 18%, porém é importante analisarmos que o cenário de 2020, quando tivemos lockdowm com fechamento de algumas atividades que gerou menor consumo. Isso é ainda mais evidente quando agora em 2021, já com alguma retomada, o consumo até o mês de julho é aproximadamente 30.000.000 MWh superior ao mesmo período de 2020, gerando assim o apagão.

Neste momento o que se vê, assim como em 2001 é a busca pela redução do consumo com taxa adicional de R$14,20 por consumo de cada 100 MWh (as empresas já dizem que o valor teria que ser no mínimo R$4 a mais do que estabelecido para cobrir os custos), ou seja, já temos um custo adicional que mesmo que em nossa casa não tenhamos consumo acima de 100 MWh, pagaremos pelo consumo necessário do comércio e industria em geral. O problema é que o custo não para por ai, pois o Brasil espera pela retomada da economia pós-pandemia, se possível com crescimento, porém com a falta de energia as empresas evitarão investimentos, podendo inclusive mudar para outros países. Em resumo vamos pagar agora e seguiremos pagando no futuro pela perda de oportunidade na geração de novos empregos e crescimento o PIB.

Para solucionar o problema de distribuição é necessário alterar as regulamentações, estabelecendo inclusive uma possibilidade de concorrência para a comercialização, assim como temos para telefone e internet. Para entender é necessário olhar para outros países, onde as pessoas podem optar de qual empresa comprar energia, como por exemplo, em nossa região poderíamos ter CESP, CPFL, COPEL, entre outras. Esta possibilidade não significa que teríamos ainda mais fios elétricos, pois a distribuidora poderia ser do governo ou ainda uma empresa concessionária, mas o fato de no final o cliente poder optar de quem comprar geraria maior eficiência em todo o processo, desde a produção até a chegada da energia em nossas casas.

Além disso, é necessário incentivar a auto-produção, ou seja, possibilidade de indústrias, comércio, pessoas físicas e até mesmo pequenas cidades e bairros poderem ter a produção de sua própria energia através de painéis solares, caldeiras termo-elétricas, pequenas usinas hidroelétricas, produção de energia eólica. É claro que para isso é necessário cuidado considerando a segurança necessária quando trabalhamos com eletricidade, mas poderia haver produção excedente com possibilidade de compra pelas empresas de energia elétrica.

Por último +e necessário o Brasil olhar para outras formas de geração de energia e incentivar investimentos na produção de energia eólica e solar. A solar, inclusive aumenta o potencial de produção quando temos problemas hídricos como o visto nos dois apagões, ou seja, a falta água por falta de chuva significa mais dias com sol e portanto mais energia solar.

Um fator importante é que o governo tem a EPE (Empresa de Pesquisa Energética), que produz excelentes análises, portanto é necessário apenas utilizá-las de maneira que saia da análise teórica e coloque ações em prática para evitarmos novos apagões e perda de oportunidades para o Brasil.

Envie sugestões de temas, dúvidas, críticas através do e-mail [email protected] ou através do Messenger do autor (Sidnei Almeida).

Sidnei Almeida, natural de Itaporanga, formado em Ciências Econômicas pela Universidade Federal do Paraná com extensão em Gestão Econômica Financeira pela Fundação Dom Cabral, além de vasta experiência em grandes empresas na área de financeira e crédito e bancos como Banco do Brasil, HSBC, Banco Renault/Santander e atualmente BNP Paribas, líder europeu.

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João Ribeiro
João Ribeiro
22 de setembro de 2021 10:24

-Bom dia!!! Parabéns pela matéria Sidnei. Gostaria de ver os governos, tanto estadual como federal, proporcionarem para a população, financimento com juros baixos e parcelas a longo prazo, para a aquisição de painéis fotovoltaicos, assim como faz para o agronegócio.