Sidnei Almeida: As Consequências Econômicas para o Brasil e o Mundo da Guerra entre Rússia e Ucrânia

No meio de um período de festa para cultura brasileira que é o Carnaval (embora por mais um ano a pandemia não permita a festa como ela é) vamos falar sobre algo triste que é uma guerra.

Na última quinta-feira, a Rússia iniciou uma ofensiva contra a Ucrânia, o que pode se tornar o maior conflito na Europa desde a 2ª. Guerra Mundial. Ocorre que independente do tempo que este conflito possa durar ele deixará consequências econômicas para o mundo todo, e até mesmo para o Brasil que está a milhares de quilômetros de distância e não deve se envolver belicamente no conflito.

Para entendermos os efeitos econômicos deste conflito, basta notar que, embora nenhum outro país tenha se envolvido belicamente, os EUA e a União Europeia e Reino Unido já anunciaram sanções econômicas à Rússia, visando o enfraquecimento da economia e impossibilidade de financiar a guerra. Estas sansões vão desde o congelamento nos Estados Unidos de aproximadamente 1 trilhão de dólares, embargos comerciais da União Européia e Reino Unido, e a exclusão da Rússia do sistema SWFT (Society for Worldwide Interbank Financial Telecommunication – Sociedade Mundial de Comunicação Interbancária) onde ela é o segundo maior usuário mundial, atrás apenas dos EUA.

Todos estes embargos acontecem mesmo sabendo que pode gerar efeitos negativos nos demais países, uma vez que a Rússia fornece 40% do gás para a União Européia e é um dos maiores produtores de petróleo do mundo.

Alguns efeitos a nível mundial já foram sentidos no primeiro dia de conflito com queda nas principais bolsas de valores do mundo, sendo que algumas chegaram a cair até 4% em um único dia. Em contrapartida as moedas fortes (Dólar e Euro) se valorizaram uma vez que os investidores preferem a segurança das moedas em vez das ações. Adicionalmente o petróleo já começou a subir e é esperado que saia dos US$100 o barril para até US$140 por barril.

Ao analisarmos a economia brasileira é importante entender as relações comerciais que o Brasil mantém com a Rússia e Ucrânia, e que podem gerar efeito negativo em nossa economia, mas também é importante ficar atento às oportunidades que podem surgir. No que diz respeito às exportações brasileiras a Rússia representa apenas 0,6% do total exportado (1/4 é representado pela carne), que embora possa parecer pouco, neste momento em que se ensaiava uma retomada da economia não podemos dar ao luxo de perdermos qualquer destino para nossos produtos.

Ao analisarmos as importações me recordo do evento realizado pelo CORECON-PR (Conselho Regional de Economia) no inicio de Dez/21 sobre a Perspectiva da Economia para 2022 quando o economista Luis Elieser Ferreira da FAEP (Federação da Agricultura do Estado do Paraná) alertou que um dos riscos para o setor era exatamente a tensão que naquele momento já existia entre Rússia e Ucrânia, uma vez que 25% dos fertilizantes utilizados no Brasil são importados da Rússia. Considerando que aproximadamente 30% do custo operacional da agricultura brasileira são de fertilizantes, isso significa que o preço dos alimentos deve subir, sobretudo das commodities que são negociadas com grande antecipação pressionando os preços atuais.

Por outro lado o Brasil é um dos países do mundo com maior capacidade de produção própria tanto matérias-primas quanto de produtos acabados (algumas indústrias precisam de mais investimento e desenvolvimento, mas a capacidade existe. Esta capacidade é ainda mais importante quando analisamos que o Brasil pode ser o substituto para alguns produtos da Rússia e Ucrânia como insumos agrícolas, grãos, minérios e commodities. Por ultimo vale recordar que dos chamados países BRICS (Brasil, Rússia, India, China e África do Sul), o Brasil pode ser considerado o mais seguro, uma vez que China é um aliado da Rússia embora ainda não tenha se manifestado. Diga se de passagem que o posicionamento da China neste conflito é muito importante para o desfecho tanto do conflito quando das consequências econômicas a nível mundial. Esta situação pode atrair investimentos para o Brasil evitando assim uma grande alta da taxa de câmbio.

A Rússia, considerando as sanções e com intenção de demonstrar força financeira, anunciou compra de ouro no mercado doméstico bem como alta da taxa interna de juros dobrando a mesma, porém ao que nos parece a população russa não demonstra confiança no governo uma vez que iniciaram uma ida aos bancos para sacar os saldos disponíveis.

Hoje, após o inicio do conflito aconteceu em Belarus a primeira rodada de negociação entre Rússia e Ucrânia, porém infelizmente sem acordo após 4 horas de reunião.
Seguimos na torcida para que o conflito se resolva o mais breve possível sem envolvimento bélico de outros países, mas conforme mencionado os efeitos econômicos não serão nulos tanto no curto quanto no longo prazo.

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Sidnei Almeida, natural de Itaporanga, formado em Ciências Econômicas pela Universidade Federal do Paraná com extensão em Gestão Econômica Financeira pela Fundação Dom Cabral, além de vasta experiência em grandes empresas na área de financeira e crédito e bancos como Banco do Brasil, HSBC, Banco Renault/Santander e atualmente BNP Paribas, líder europeu.

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